BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

19 01 2013

“Mesmo inferior aos outros dois, filme mantém pegada e chega ao fim de uma trilogia com dignidade e homenagem aos fãs!”

TIM BURTON

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Estive em 1989 na primeira sessão de cinema de minha vida, com um saco de pipoca em mãos e acompanhado de meu amado irmão mais velho, Itamiro, e de nosso amigo vizinho, Itamar. Fomos todos assistir BATMAN, dirigido por Tim Burton e com uma atuação espetacular de Jack Nicholson como o Coringa. Muitos torceram o nariz para o baixinho Michael Keaton como Batman, mas a sua época, o filme funcionou bem e passou anos incólume como a maior transposição do universo do homem morcego para as telonas, superior ao legal “BATMAN RETURNS” e infinitamente melhor que os infames “BATMAN FOREVER” e “BATMAN & ROBIN”, que mesmo ruins, tinham lá um grau de divertimento descompromissado a la ADAM WEST.

Batman Returns

BATMAN BEGINS – O INICIO DA ERA NOLAN.

Já em 2005, 16 anos depois de minha primeira experiência e de ter a visão de Burton como a mais correta até então no cinema, volto ao cinema, emocionado e de forma até um tanto quanto romântica, para acompanhar a nova epopeia do HOMEM MORCEGO nas telonas. Passaram-se os anos, muitos gibis depois, já tinha uma vasta gama de conhecimento sobre o universo do personagem, ou seja, a experiência seria deveras diferente.

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E eis que vejo um filme espetacular, roteiro maravilhoso e referências ao fantástico quadrinho BATMAN ANO 1, de Frank Miller, que por sinal foi a base de grande parte do filme. Mas claro, o novato Cristopher Nolan tinha sua visão do personagem e preencheu com perfeição os aspectos fílmicos que uma adaptação de HQ necessita. BATMAN de Tim Burton já estava, aqui, superado e ficado há milhões de quilômetros da qualidade desse filme como cinema. Uma virada na história, que até mesmo o mais fanático fã do personagem não teve a sensibilidade de sacar, já mostrava que Nolan entendia bem o universo de BATMAN e mais do que isso: entendia de grande cinema; sabe aquele com grandes roteiros, interpretações e por ai vai? Bem, isso fazia falta até então!

Christian Bale, ator que eu já gostava muito desde que interpretou outro personagem que amo – Patrick Bateman, o Psicopata Americano, trouxe uma profundidade a Bruce Wayne/BATMAN, que deve ter causado um bocado de vergonha a interpretação robótica, mas competente, de Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney então nem se fala.

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS – O MELHOR FILME BASEADO NUMA HQ DE TODA A HISTÓRIA DO CINEMA.

Mas nada nos preparava para algo tão intenso, arrebatador e genial quanto BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS, que de longe é a melhor adaptação de uma história em quadrinhos para a sétima arte. Fotografia primorosa, trilha sonora fantástica, direção competente, clima épico e interpretações arrebatadoras.

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O que dizer então de Heath Ledger e sua visão do CORINGA, o vilão dos vilões? Intenso, inspirado e possuído por uma força dramática descomunal, a interpretação vencedora do Oscar póstumo (justamente, diga-se de passagem), é uma das maiores da história do cinema e choca, até hoje, fãs que viram o filme pelo menos mais de dez vezes (meu caso).

BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS amplia a proposta de Begins e nos entrega uma Gotham que sentimos e respiramos; quando CORINGA ameaça a cidade, todos estão ao mesmo tempo embriagados pelo carisma do personagem e ameaçados também. Só resta o Batman para nos defender.

Cenas de ação espetaculares (assalto ao banco no inicio, a cena do prédio, perseguição do Coringa e outro montante), dramas bem desenvolvidos e um trabalho calculado milimetricamente para que possamos cada um, a sua maneira, fazer uma análise pessoal da psicologia desses personagens.

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A pergunta era: Se a série de NOLAN, desde o inicio fora pensada como uma trilogia, como superá-la?

Talvez, se Heath Ledger não tivesse morrido tragicamente, teríamos uma obra que jamais sairia de nossas mentes, mas com o falecimento de Ledger, a missão de CHRISTOPHER NOLAN era um tanto quanto ingrata.

BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE – COM O QUE TINHA EM MÃOS, NOLAN FEZ O MELHOR!

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Bem, após a perda de Heath Ledger e sua visão caótica do Coringa, Nolan, que até então planejara minuciosamente a trilogia, viu que não teria jeito de trazer o personagem de volta sem tirar o foco da dramaturgia, pois comparações seriam inevitáveis, então qual foi a alternativa? Centrar-se em outros vilões de peso nas HQ’S: Bane e a sensual Mulher Gato, que não é, necessariamente uma vilã.

O desfecho da trilogia estava sendo aguardado pelos fãs com muita ansiedade, inclusive por mim – qual seria a leitura de um personagem complexo como Bane no universo de Nolan? Como se sairia a Mulher Gato? O filme conseguiria superar o magistral e audacioso CAVALEIRO DAS TREVAS? São perguntas que todo fã matutava esperando o dia da estreia para então, só assim, obter a resposta.

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Primeiramente, desde o primeiro quadro, até o último, BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE é gigante, épico e cheio de “panca”. Não espere o minimalismo dramatúrgico e até estético de BEGINS e nem a narrativa caótica e fragmentada de BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS. Aqui temos um filme bem pensado, linear, e idealizado para que seja o final de uma trilogia digna das grandes obras do cinema, é o LAWRENCE DA ARÁBIA ou E O VENTO LEVOU dos filmes de Super Heróis, é pretensioso e extremamente artístico, mesmo sendo um produto de entretenimento, as cenas em IMAX só potencializam isso.

É um filme para ser visto, revisto e discutido durante anos, inclusive deve ser maravilhoso assisti-lo em sequência, junto com os outros dois que o precederam. Aqui o roteiro de Nolan dá a dimensão da trilogia, que usou e abusou de textos originários dos quadrinhos como: “BATMAN ANO UM”, “BATMAN O LONGO DIA DAS BRUXAS”, “BATMAN A PIADA MORTAL”, “BATMAN SAGA TERRA DE NINGUÉM”, “BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS”, “BATMAN SAGA A QUEDA DO MORCEGO”, “BATMAN O FILHO DO DEMÔNIO” e tantos outros, que foram a base de roteiros sólidos e totalmente originais, que procurou, dentro do possível, agradar a gregos e troianos.

Essa junção de temas abordados nos quadrinhos, mesclado com uma nova e particular visão do diretor, deu semelhança e relativa fidelidade aos quadrinhos e trouxe uma nova roupagem ao universo fílmico do Homem Morcego, sendo uma visão única e autônoma.

O último filme da trilogia já começa grande, com a primeira operação de Bane, personagem que é um misto de força física com precisão de um estrategista de primeira. A partir daí já sabemos que Batman encontra fisicamente, seu maior oponente dentro da trilogia.

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Batman está afastado das ruas há 08 anos, após o incidente com Harvey Dent (fim do segundo filme), que originou uma lei que praticamente pacificou as ruas de Gotham, Batman é um personagem obsoleto para os novos tempos, onde a política tomou o seu lugar para o bem e para o mal de Gotham.

Como na saga “A QUEDA DO MORCEGO”, quando Bane surge nos subterrâneos de Gotham e começa a colocar seu plano em prática, um Bruce Wayne já combalido pelos anos de luta, se vê obrigado a voltar à ativa, e acreditem, falar mais do que isso sobre o filme só iria estragar o prazer de assisti-lo e se surpreender frame-a-frame.

Temos a anarquia instaurada em Gotham (bem provável que se Heath Ledger estivesse vivo, o Coringa possivelmente estaria com Bane, por trás de tudo), e a cidade de repente, se vê dependente de um Batman que já não é mais o mesmo. O clima do filme é como um retorno de uma banda veterana de Rock, num dado momento quando Batman volta de seu exilio, vemos um Policial veterano comentando com um novato: “Prepare-se para um show inesquecível!”, chega a arrepiar.

Trilha sonora precisa, cenas antológicas (a cena de encontro cara-a-cara Bane X Batman é soberba, tanto na primeira quanto na segunda luta), reviravoltas que senão originais, ainda assim surpreendem e fotografia esplêndida em todo o poderio imagético do formato IMAX, dá ao filme uma dimensão soberba, épica e arrebatadora.

Mas o filme carece de um vilão da potência de um CORINGA, o filme anterior nos deixou mal acostumados, e mesmo Bane sendo um ótimo vilão, numa construção perfeita do excelente Tom Hardy, que mesmo limitado pela máscara fez um trabalho espetacular com expressões corporais e vozes; e a presença de uma Mulher Gato contida, numa atuação muito boa de Anne Hathaway, não são o suficiente para consolar os fãs mais fervorosos.

Na ânsia de querer funcionar, o filme liga alguns fatos, trás de volta alguns personagens, ameaça, de forma forçada, diga-se de passagem, uma reviravolta lá pro final, que deve agradar aos jovens fãs de Batman, mas causar algum desconforto nos veteranos e se assume como filme de Super Herói.

Aliás, essa é uma das principais qualidades desse filme, vemos aqui um Batman menos pé no chão e mais lúdico. Temos os vilões que explicam seus planos nos mínimos detalhes, talvez uma homenagem ao Batman de Adam West e um final surpreendente, mas se você assistir com atenção os outros filmes e procurar uma coerência narrativa na trama e for um pouquinho experiente nos quadrinhos, logo deve ganhar qual o “ROSEBUD” do filme.

Por fim, “BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE” não deve ser analisado autonomamente como os outros dois filmes, que podiam ser facilmente digeridos sozinhos, sem a necessidade de se conhecer o outro, no fim da trilogia, a coerência com os outros dois filmes é a força motriz, sem isso, temos apenas um filme de ação confuso e mediano, coisa que ele, de fato, não foi pensado para ser.

Vou me arriscar, mesmo tendo visto o filme apenas uma vez, a dizer que ele é um pouquinho inferior ao Begins e bem inferior ao Cavaleiro das Trevas, mas acreditem, ainda assim é superior a grandes filmes de Super Heróis, como: Superman, Capitão América, Homem de Ferro e semelhantes e o mais importante, melhor que BATMAN, BATMAN RETURNS, BATMAN FOREVER E BATMAN & ROBIN, propostas diferentes do universo perturbador do personagem.

BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS, filme que eternizou Heath Ledger, é possivelmente o melhor filme de super-heróis da história do cinema e dificilmente terá seu posto tomado, mas lembre-se, faz parte de toda uma trilogia pensada milimetricamente, que teve que mudar o percurso num dado momento, mas mesmo assim manteve a dignidade e coerência, é isso que dá força a BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE.

NOTA 8,5 de 10.

Batman–O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Duração: 164 minutos
Estúdio: Warner Bros.
Direção: Christopher Nolan
História: Christopher Nolan e David Goyer
Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan
Elenco: Christian Bale, Michael Cane, Gary Oldman, Morgan Freeman, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Liam Neeson, Cillian Murphy

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THE BOYS – O NOME DO JOGO

15 07 2012

“Série de Garth Ennis, para variar, demole o universo dos super – heróis de collant!”

Depois de um bocado de tempo sem escrever para meu blog, eis que decido reler um quadrinho que me deixou com uma opinião não muito definida na primeira vez que o li, tamanho o sensacionalismo contido naquelas páginas e humor negro gratuito também. Mas isso não é de se espantar, tendo em vista que o autor é o irlandês malucão Garth Ennis, responsável por pérolas como “Preacher” (maravilhosa por sinal), “Apenas um Peregrino” (ótima) e a melhor fase do “Justiceiro” em todos os tempos, entre tantos outros trabalhos. A única coisa que me espanta é como ele consegue trabalhar no mainstream comercial das Hq’s e ainda por cima se manter na ativa com boas vendagens, e atacando o conservadorismo americano, sem nunca ter tido uma passeata contra ele (coisas típicas de país com falso perfil moralista) – pretendo um dia saber como ele consegue essa façanha.

Talvez a explicação mais óbvia, é que ainda exista uma visão de que HQ é coisa para criança e não uma arte séria, e é aí que caras contestadores, críticos e transgressores como Ennis, enxergam nas páginas dos quadrinhos, o meio correto de levar sua visão e sua arte para um meio em que aparentemente pode-se fazer de tudo. Vale lembrar que “The Boys” fora publicada primeiramente pela DC Comics, que mesmo com vendagens altas, sentindo que a narrativa feria o perfil moralista de seus personagens, decidiu cancelar a série, que foi abraçada prontamente pela descompromissada Dynamite Enterteinment.

Mas o que esperar de The Boys? É uma série inovadora?

Bem, para quem conhece os trabalhos anteriores do autor, dificilmente encontrará ali algo que o surpreenda, principalmente quem leu “A Pró”, mas a verdade é que o cara sabe contar uma estória “escrota” como poucos, e nós, pobres leitores vorazes, queremos lê-las e devorá-las loucamente, por isso Ennis é tão forte na indústria.

A trama desse encadernado lançado pela Devir, centra-se no grupo de heróis, ou anti-heróis, dependendo da visão, financiados pela CIA, que visam colocar os super – heróis na linha, quando seus exageros dignos do “MOTLEY CRÜE” colocam vidas em riscos. Para isso, Carniceiro, Hughie Mijão, Leite Materno, Fêmea e o Francês são os THE BOYS, grupo que usa métodos nada ortodoxos para alcançar seus objetivos.

Aqui eles colocam na linha uma espécie de NOVOS TITÃS, a TURMA TERROR e já surgem como ameaça real ao “OS SETE”, uma “LIGA DA JUSTIÇA” totalmente deturpada. A arte competente de Darick Robertson, muitas vezes irregular, não atrapalha em nada o texto construído de forma redondinha por Garth Ennis.

O universo dos super – heróis é achincalhado página a página, de forma realmente engraçada e repleta de humor negro. Lá eles são uma espécie de pop stars, que visam o lucro e não obstante, fazem questão de seguir a cartilha do bom e velho marketing. E tome teste do sofá para uma jovem heroína, surubas que envolvem até um Lobo (!), relações homossexuais e por aí vai…

Para você ter uma ideia da falta de limites da mente doentia de Garth Ennis, o personagem TREM A, uma espécie de FLASH desse universo, atropela “acidentalmente” uma mulher, deixando o seu pobre namorado que estava dando uns “pegas”, apenas com os braços da moça. Para completar a insanidade, o personagem Hughie Mijão, tem como modelo visual nada mais, nada menos que Simon Pegg, o senhor “SHAUN OF DEAD”.

Mas em meio a todo esse sensacionalismo, temos alguns bons momentos inspirados e a força motriz por subentendida no texto de Ennis: “Por baixo de toda pele moralista, existe um mundo de podridão!”; mais poético que isso, impossível.

NOTA: 9 de 10.





A Mística por trás de Dylan Dog

23 02 2012

Ahh… Dylan Dog, que personagem completo, arrebatador, genial, capaz de numa mesma historia passear pelo erudito e o pop totalmente de forma coesa, sem parecer forçado, e ainda por cima aliar o humor com o horror tanto físico, quanto psicológico e mesmo assim não quebrar o clima, uma coisa completa a outra, e por incrível que pareça estou falando de uma historia em quadrinhos, tá entendendo? De um bom e velho, simplório gibi…

Grouxo, Dylan Dog e Bloch, trio parada dura!

Vale citar uma frase do escritor e filósofo italiano, Umberto Eco a respeito do personagem: “Posso ler a Bíblia, Homero ou Dylan Dog por dias e dias sem me entediar”.

Essa frase tem um imenso nexo, já que as historias de Dylan Dog, principalmente as escritas por Tiziano Sclavi, seu criador, são verdadeiras obras de complexidade literárias raras na literatura mundial, as influências que Tiziano consegue abraçar são tantas, que é quase impossível citar todas.

Para quem nunca ouviu falar, Dylan Dog é um Fumetti, quadrinho italiano publicado pela Bonelli, a mesma responsável por Tex. Ele é um investigador especializado em casos paranormais/sobrenaturais, mas é meio ateu, tem como parceiro um sósia ou o verdadeiro (quem sabe?) humorista do cinema Grouxo Marx, um dos irmão Marx, responsável pelo lado humorístico da série, tudo isso entre diversas historias fantásticas cheias de horror e suspense.

Grouxo, fiel parceiro de Dylan e um dos irmãos Marx, será?

Mas o que transforma Dylan em um personagem tão idolatrado pelos fãs, que rendeu até um festival de cinema com seu nome, e fez esse fã e escriba que vos fala fazer uma tatuagem em sua homenagem?

A verdade é que, voltando a Umberto Eco, não é exagero dizer que Dylan é tão interessante quanto os clássicos, lá encontramos referências não gratuitas a literatura, dos clássicos aos mais vagabundos pulp fictions da vida, música, cinema desde o trash ao cinema de arte, vemos filosofia, críticas sociais, religião, reflexões acerca da humanidade, uma salada gigantesca, tratada com muito bom humor, inteligência e um cinismo ácido e mordaz.

Histórias são poéticas!

As historias mexem com a percepção do leitor, marcam-no, não é só uma simples e reles leitura, é algo que queremos guardar para sempre. A solidão do personagem e sua aparente depressão nos faz criarmos uma identificação imediata com ele, já que desde o inicio já sacamos que de perfeito ele não tem nada, e quer sobreviver, ganhar seus troquinhos, mesmo que a imprensa viva chamando o cara de charlatão – melhor, ele não está nem ai para o que os outros dizem.

O ator Rubert Everett foi a matriz original para o visual do personagem!

Grouxo com suas boas sacadas, rende piadas muitas vezes surreais, mas nem por isso menos engraçadas, e não é só ele o coadjuvante de luxo não, o inspetor Bloch é outro clássico, um amigão que vive reclamando sua aposentadoria e temendo perdê-la, é o cidadão comum, que mesmo estando na força policial, faz de tudo para ajudar o amigo.

Brandon Routh, ator interpreta o personagem em filme de Hollywood!

O maior rival de Dylan, é um sujeito diabólico e misterioso que quer apenas descobrir o segredo da vida eterna, se é que já não o encontrou, trata-se  do Dr. Xabaras, que tem uma estranha ligação com Dylan.

O veículo de Dylan é o pouco glamouroso Fusca Conversível branco, com as placas DYD 666. Mulheres? Ah… Bah… Dylan é como todos os homens, mulherengo, galanteador, só que não tem ninguém fixo e sempre se envolve com suas clientes. Aliás, na genial historia O Longo Adeus, Dylan recebe a visita de um amor do passado, um amor de verão, que o leva a um passeio surreal e onírico, nos fazendo refletir sobre escolhas, relacionamentos e como viver intensamente aqueles bons momentos, e ela é tão linda, mas tão linda, que é impossível descrevê-la com palavras.

No meio de tudo isso, para nós, pobre fãs de horror e podreiras: sangue, cabeças cortadas, vampiros, alienígenas, zumbis, assassinos seriais, mulheres nuas, violência explícita, no melhor estilo e com certa classe.

É uma pena que Dylan será adaptado aos cinemas pelos americanos, por tanto devemos esperar o mínimo possível em complexidade e uso de toda a mística envolta dele, e nos contentarmos com um reles divertimento. Para nossa alegria, o filme Della Morte Della More, baseado num livro de Tiziano Sclavi, é quase um filme do Dylan, até porque o papel principal é de Rupert Everett, que inspirou o visual do personagem, toda sua mística está ali e o melhor: tratado com todo o carinho que só cinema independente pode dar.

Leituras Obrigatórias (As 13 mais de Dylan Dog):

1º Partida com a Morte (Dylan Dog nº 004, Editora Mythos)

2º O Despertar dos Mortos Vivos (Dylan Dog nº 001, Editora Record e 002 Editora Conrad)

3º O Longo Adeus (Dylan Dog nº 005, Editora Mythos)

4º A Historia de Ninguém (Dylan Dog nº 035, Editora Mythos)

5º A Zona do Crepúsculo (Dylan Dog nº 007, Editora Record)

6º Johnny Freak (Dylan Dog nº 001, Editora Conrad)

7º Morgana (Dylan Dog nº 004, Editora Record)

8º Canal 666 (Dylan Dog nº 011, Editora Mythos)

9º A Beleza do Demônio (Dylan Dog nº 006, Editora Record)

10º Os Matadores (Dylan Dog nº 005, Editora Record)

11º Alfa e Ômega (Dylan Dog nº 009, Editora Record)

12º O Túnel do Terror (Dylan Dog nº 003, Editora Mythos)

13º Dylan Dog e Martin Mystère: Ultima parada Pesadelo (Especial 01, Editora Record)

  • Dylan Dog saiu pelas editoras Record (11 mensais e duas especiais), Globo (na antologia Fumetti), Conrad (mini série em 6 edições), Mythos (40 edições e 6 historias curtas, na antologia Tex e os Aventureiros);
  • Brandon Routh (SuperMan) irá interpretar Dylan Dog no Cinema, filme dirigido por Kevin Monroe (As Tartarugas-Ninjas o Retorno), e roteiro de Joshua Oppenheimer e Tom Donnelly, dupla que escreveu o longa Sahara;
  • DellaMorte DellaMore ou Cemitery Man (1994) para o mercado americano, curiosamente foi lançado em video no Brasil. Dirigido por: Michele Soavi, com Rupert Everett, Anne Falchi (Mulher Linda), François Hadji Lazaro.




Cripta Volume 1

24 05 2011

"Capas de Frank Frazetta são triunfos dessa clássica edição"

 “Uma compilação maravilhosa, perfeita e histórica, um golaço da editora Mythos!”

Além de ter mantido Dylan Dog por mais de 40 números no Brasil, feito considerado por muitos como heroico, a editora Mythos marca mais um ponto no respeito que tem pelo universo do horror nas artes sequenciais. Trata-se da publicação da compilação CRIPTA que foi relançada nos E.U.A pela DarkHorse numa edição de luxo e replicada na integra aqui em terras brasilis.

O trabalho gráfico está impecável, respeitando perfeitamente sua fonte original da DARKHORSE BOOKS que adquiriu os direitos das macabras historietas que foram publicadas com sucesso no Brasil nas páginas da extinta e lendária HQ KRIPTA. As histórias da EERIE juntamente com as da EC Comics, talvez sejam os trabalhos mais significativos do universo do horror e, por isso mesmo influenciaram uma gama de pessoas que se dedicaram a disseminar o horror mundo a fora como John Carpenter, Lucio Fulci, Spielberg, entre tantos outros nomes.

É uma dadiva termos em mãos um exemplar como essa compilação e verdadeiramente pavoroso viajar nessas pequenas tramas, que como um bom vinho, envelhecem maravilhosamente bem. Começam pelas capas magistralmente pintadas em sua maioria pelo grande Frank Frazeta em inicio de carreira, até os roteiros certeiros de gente da estirpe de Ron Parker, Carl Wessler, E. Nelson Brindwell, Eando Binder, Larry Ivie e claro, textos antológicos de Archie Goodwin.

Na arte, nomes de peso como Jack Davis, Steve Ditkto entre outros gênios, ilustram tramas que beiram o macabro e o bizarro. São pequenas histórias em que o terror Dark, violento e atemporal dos textos de Archie Goodwin e trupe transformaram em verdadeiros clássicos horríficos das artes sequenciais de todos os tempos junto com o material da EC Comics, que também merece um resgate a altura.

É um álbum que merece ser lido devagar, apreciando história por história, arte por arte e capa por capa, para lembrarmos que em certo momento, as HQ’s eram fontes de sustos e de textos dignos de mestres do porte de Poe e Lovecraft. Stephen King? Esqueçam, ele também foi muito influenciado pelas obras da EERIE, ou seja, prefiram o original, pois vale realmente a pena.





Red-Armados e Perigosos

5 04 2011

“Uma trama de ação objetiva e cativante!”

Warren Ellis sabe tirar leite de pedra, ele consegue como poucos fazer uma narrativa simplória caminhar com consistência dramática o suficiente para manter o interesse vivo página a página. E não é diferente em RED, aqui Warren usa o mínimo de informações e joga com o conhecimento prévio dos leitores nos clichês hollywoodianos, assim, não precisamos de muitas explicações acerca dos personagens para saber o que está acontecendo.

Paul Moses é o anti herói da vez, um assassino aposentado da CIA, que executou trabalhos históricos para agência de inteligência. Quando um novo diretor assume o cargo, ele decide dar cabo de Paul e é ai que o velho matador entra em ação.

Como um bom faroeste, é matar ou morrer que importa e nesse mundo cão proposto por Ellis, não existe espaço para argumentações, assassino é assassino e faz a única coisa que sabe: Matar. A arte de Cully Hamner tem uma estrutura estética que se adequa inteiramente a história e a forma como ilustra as cenas de ação, são no mínimo primorosas.

A trama é isso apenas, Paul deve dar cabo dos mandantes de seu assassinato e volta a ativa, e tome sequências de ação e assassinatos uma mais criativa que a outra, como um filme da série Sexta Feira 13, que pode não ser original, mas cumpre seu papel: diverte.

Outro ponto a se destacar, é que Warren entra em méritos políticos e crítica duramente essa politica de acordos, típicas do Brasil PMDebista por exemplo. Ele prega que as coisas tinham pelo menos mais honra, quando eram efetuadas por técnicos, por pessoas que conheciam do negocio, e quando alguém que está lá por alguma indicação politica qualquer deve tomar uma decisão de risco, quase sempre dá em merda.

Recado no mínimo brilhante, grande Ellis…





Marvel Terror Nº1

19 12 2010

“Não é um caça-níquel, é uma grande ode ao verdadeiro horror!”

Confesso que quando soube da publicação das histórias de horror produzidas pela Marvel no Brasil, achei que seria um mero e fraco caça-níquel, e o preconceito tomou conta de mim, a ponto de que quando peguei o exemplar na mão, me concentrei em todos os aspectos, para não deixar passar nenhuma cagada da casa das ideias e descer a lenha sem piedade no meu blog – realmente não confiava no título.

A verdade é que minha língua queimou mais que o fogo do inferno onde reside Mefisto e fiquei mais desconfortável que o Tocha Humana numa praia ao começar a ler esse fantástico exemplar, que se existe uma crítica negativa é a capa lamentavelmente genérica escolhida pela editora Panini.

O primeiro arco do encadernado é Dead Of Night-Werewolf by Night com roteiro de Duane Swierczynski e arte de Mico Suayan. A trama apresenta Jack Russel, um lobisomem que tenta de toda forma conter a fera que reside dentro dele e é cheia de personalidade. Para isso, passa os dias de lua cheia numa câmara de segurança máxima criada por ele, deixando sua esposa grávida Cassie, que não sabe de seu segredo, sozinha em casa.

O roteiro de Swierczynski peca em alguns momentos por abusar de uma estrutura de roteiro clássica e redundante, com muitas reflexões internas dos personagens e um didatismo exagerado em busca de expor melhor a batalha interna de Jack. Esse recurso poderia ter sido facilmente deixado de lado, tendo em vista que a arte de Mico é competentíssima em todos os aspectos e logo vemos que é um artista que como poucos sabe se expressar objetivamente através de imagens.

Mico dá um dinamismo para as cenas, criando antológicas cenas de ação e horror gore para o deleite de nós fãs de “podreiras”. Logo na apresentação dos personagens e da trama, ainda no capitulo 01, ele nos brinda com um Lobisomem realmente assustador e muito, muito sangue.

Já Swierczynski, tirando o didatismo desnecessário, sabe como contar uma história de horror e suspense, e mesmo que as reviravoltas não sejam tão absurdas, a forma como ele conduz os acontecimentos, nos surpreende página a página e o sofrimento de Russel perante a sua maldição é sentida por todos nós.

Numa dessas viradas, ficamos sabendo mais sobre o passado de Russel e aí vemos a influência do selo MAX no título. A origem do Lobisomem tem semelhanças quase “Control C e Control V” com outro figurão do universo MARVEL MAX, pode-se dizer que os envolvidos são farinhas do mesmo saco, mas ao analisarmos friamente, sabemos que cheira mais a uma preguiça básica.

Mas deixo claro que o roteiro é tão bem estruturado e escrito, que nada, absolutamente nada, atrapalha essa boa história, que cada página lida fica mais sangrenta, tensa e assustadora. A cena no laboratório em que vemos outros espécimes de monstros é absolutamente arrepiante e asquerosa (outro ponto para Mico).

O final é brilhante e uma aula de suspense em quadrinhos, onde quadro a quadro o suspense se constrói e termina, para variar, de forma sangrenta e redentora. E como uma boa e clássica história de horror, temos um gancho para uma continuação.

Essa trama, para os aficionados pela saga Crepúsculo, é uma forma de mostrar o quão mortal e assustador um Lobisomem pode ser, colocando-o novamente em seu devido lugar. Esqueça as “feminices” do personagem da saga de Bella e Edward, aqui até a Licantropa que surge na trama é mais macho que o Lobisomem da saga adolescente.

O ritmo não baixa nem um segundo na segunda história do encadernado, saído de Legion Of Monster-Werewolf By Night 01, produzida em 2007 e escrita por Mike Carey e com desenhos de Greg Land, a trama é a que mais se aproxima do universo Marvel, quase nada de sangue ou horror, centra-se basicamente no clima e na ação frenética.

As apresentações dos personagens são as mais sintetizadas possíveis, num bar vemos uma garota, de uma pequena cidade do interior detentora da maldição dos Lobisomens, que herdou de família. Vemos um forasteiro que chega ao bar e em seguida uma gangue de caçadores de Lobisomens, os mesmos que mataram sua mãe e irmã.

A trama, que lembra um faroeste moderno é bem simplória e sem muitos arroubos, mas o que prende a atenção mesmo é a ação desenfreada e um clima meio “tarantinesco” de se levar a trama. Vale uma leitura rápida, mas não chega a ser algo memorável.

O roteiro está redondinho e contido e a arte é aquela arte “Marvel/Mensal” que estamos cansados de ver.

Seguimos então com a outra pequena história, também saída de Legion Of Monster 01 de 2007. Trata-se do revival de um personagem clássico da Marvel, Man-Thing, que ganhou inclusive anos atrás, uma adaptação para as telonas pela pavorosa Nu-Image filmes. E é de longe a pior coisa de todo esse encadernado. Escrito e desenhado pelo ridículo Ted McKeever, a trama mostra o cadáver de Simon Garth vagando por hospitais, vielas e bairros, inclusive com uma insinuação de necrofilia no mínimo tosca.

O último conto dessa antologia Marvel de horror é muito interessante, escrita e desenhada por Skottie Young, que mostra mais uma visão do monstro de Frankenstein, ou seja, uma nova leitura do universo idealizado por Mary Shelley. Também saído de Legion of Monster 01 de 2007, é infinitamente superior às duas histórias anteriores.

É um horror clássico e gótico, que lembra as grandes histórias da produtora inglesa Hammer. A arte e o conceito do monstro e dos personagens estão bem delineados e os requintes em se narrar a estória, inclusive com momentos poéticos e intimistas, reforçam esse grande trabalho de Young.

No geral é isso, um encadernado de 148 páginas de puro horror da Marvel, que poderia ser um reles e chato caça-níquel, configura-se numa adorável e prazerosa leitura, que tem uma quebra de ritmo no meio, mas que consegue terminar muito bem. Fica uma dica para o próximo número: um mix com maior qualidade, ou que esteja pelo menos num bom nível, pode deixar a edição mais orgânica e com isso teremos uma leitura muito mais agradável e com menos altos e baixos.





DYLAN DOG Nº19

31 08 2010

Editora: MYTHOS

Lançamento: Maio de 2004

Roteiro: Sclavi

Arte: Freghieri

Publicação na Itália: Dylan Dog Nº40, Janeiro de 1990.

História: Aconteceu Amanhã

Sinopse:

Dylan Dog encontra acidentalmente um antigo amigo, Fat, editor de jornal e para quem o detetive do pesadelo passava notícias quentinhas quando ainda trabalhava na Scotland Yard. Num passeio bizarro pela gráfica ele acaba ganhando do amigo, o jornal do dia seguinte. Em meio a resultados de apostas de corridas e notícias que ainda irão acontecer, temos a mais bizarra: Dylan morrerá num acidente de avião.

“Um épico minimalista, escrito por maestria por Sclavi, o criador do detetive do pesadelo!”

Tiziano Sclavi é sem sombras de dúvidas, além do criador do personagem, o melhor roteirista para as histórias de Dylan Dog, afinal, as melhores saíram da sua fértil e bizarra imaginação. Poucos autores sejam de HQ’s, literatura, cinema ou séries, têm o dom de mesclar clichês, referências pop’s, horror, violência, poesia e a mais alta literatura, em um produto que se destina basicamente ao entretenimento.

Hollywood, que está adaptando o personagem para o cinema, fatalmente falhará, pois a complexidade do personagem é inviável em um produto de entretenimento puro, talvez por isso, a versão mais fiel que teremos para a telinha do universo idealizado por Sclavi, ainda seja o seminal terrir “Della Morte, Della Amore” baseado em livro de sua autoria e ainda roteirizado pelo mesmo.

Nessa edição de Dylan Dog, acompanhamos o detetive do pesadelo em uma série de acasos, do encontro fracassado com Judy ao encontro com o amigo Fat, e a posse de um jornal que data sua morte e o pior: em um acidente de avião – quem conhece as tramas de Dylan Dog, sabe que o nosso detetive do pesadelo odeia aviões. As referências passam pelo cinema de René Clair, mais especificamente o filme “ACONTECEU… AMANHÔ e esbarram nas linhas narrativas de várias pequenas estórias que convergem em um final apoteótico, que vemos no cinema moderno desde os anos 70.

O clima é de total melancolia, o personagem Fat, misterioso e quem dita o clima de toda a história, é construído sem transmitir um suspense, mas existe um fator que nos faz não querer acreditar no que está acontecendo, mesmo sabendo que é isso mesmo que imaginamos, infelizmente…Essa empatia com o personagem é algo que só um grande autor é capaz de fazer, pois em pouco tempo, Sclavi constrói o passado, o presente e o futuro desse personagem, a ponto de nos preocuparmos com ele.

Mesmo sem ser a melhor história de Dylan, essa é uma grande mostra da qualidade desse universo único. Aqui temos pequenas histórias ligadas ao acaso que irão convergir, como dito antes, num final gigantesco. Temos um piloto de caça que está prestes a ter um contato com UFO’s; um simplório vendedor que é confundido com um estuprador e vê sua vida se transformar num inferno; temos um estuprador que pode escapar imune; o erro técnico que nos mostra que a sorte é imprevisível; há ainda o canalha que derrubou um companheiro no serviço por pura inveja e a natureza por si só irá reparar os erros; para finalizar a lista temos Dylan tentando entender sua possível morte, já que sabe a causa e a data dela – enquanto tudo isso acontece, as esperanças vão se esvaindo num mar de coincidências

Sclavi constrói a trama aos poucos e amparado pela bela arte de Freghiere, consegue criar um clima onírico. Sabemos a todo instante que algo de ruim acontecerá e Dylan não pode mudar isso, pois é o que o destino quer, e no jogo do destino ele é um mero espectador; essa sensação de impotência perante o acaso é o que mais assusta na trama, até mais do que a violência e os monstros presentes nela.

Por fim, temos um grand-finale blockbuster e uma explicação básica dos acontecimentos, além de um belíssimo diálogo final, no qual as emoções afloram e vemos que o destino, se existe realmente, é implacável e não nos dá escolha alguma. Obra de gênio.