O Gerente, o Presidente e o Garoto.

4 10 2011

Uma empresa com 30 anos de história estava falindo. Nesses trinta anos, pouco avançou, pior, retrocedeu e muito. Seu Gerente tinha 25 anos à frente da empresa e a defendia a ferro e fogo, cheio de argumentos e desculpas para o insucesso da mesma. Certo dia, o Presidente, que até então nunca havia se posicionado quanto a tamanho fracasso, tendo em vista que suas outras empresas sempre financiaram a esta outra, anunciou que o Gerente seria substituído por um novo, e que o novo gerente tinha apenas 20 anos e uma nova visão de negócio.

O experiente Gerente disse:

– Como isso? Se eu que tenho 30 de empresa e conheço todos os caminhos, ainda não consegui o sucesso, como um jovem de apenas 20 anos o conseguirá? Quando eu comecei aqui ele não tinha nem nascido!

O Presidente, que tinha aquela empresa apenas como hobby, pois era o sonho de seu velho pai, encarou o gerente de modo frio e profissional como nunca tivera feito antes. Vale dizer que as outras empresas dele eram um sucesso, pois ele tinha uma visão progressista quanto a negócio, mas naquele momento ele se perguntou: “O que passou pela minha cabeça ao deixar esse cara por 30 anos aqui?”. Ele deu um sorriso e respondeu:

– Bem, você teve 30 anos e foi incapaz de avançar um centímetro nessa empresa, pior, retrocedeu… O que você tinha para me mostrar, já me mostrou, agradeço seu esforço, mas a verdade é que o senhor é um derrotado e acomodado. Não soube nesses anos aprender com as derrotas e muito menos teve vontade de vitória, o fato é que a vida é curta e o tempo passa…

O Gerente, que até então se sentia intocável, sentiu um frio na barriga e frustração, ele entendera que tudo que acabara de ouvir era uma grande verdade e não tinha argumentos consistentes. Decidiu então partir para ofensa ao jovem que ele não conhecia, usando a velha estratégia da falta de experiência e de ser novo na empresa. Após a explanação, o Gerente, sentindo-se por cima na discussão, questiona:

– Aí eu gostaria que o senhor me respondesse: Qual seria a vantagem desse jovem na empresa?

O Presidente deu um sorriso irônico, ajeitou o terno e respondeu:

– Simples. Nele existe pelo menos a esperança, embora jovem, sua cabeça está borbulhando de novas e interessantes ideias. Vale dizer também que o garoto tem uma vantagem muito importante quanto a você: ele é uma folha em branco, não foi derrotado tantas vezes e o melhor, já tem uma vitória no jogo, que é o novo trabalho dele. Você já me mostrou nos últimos 30 anos do que é capaz e o jovem, não, ou seja: chega um momento, em que a mudança não só é essencial, mas também o último recurso de quem quer ver as coisas andando certo e com sucesso.

O Gerente saiu cabisbaixo da sala do Presidente.

Antes de começar sua gestão, o Garoto pediu uma reunião com o antigo Gerente. O Presidente sem entender questionou o garoto:

– Por quê? O que você acha que pode aprender com alguém que não deu certo?

O Garoto, com a ousadia que a idade lhe dava, respondeu rindo:

– Simples: o que não fazer!

Após a reunião, que durou duas horas, o Presidente o encarou e perguntou: E ai? O que não fazer?

O Garoto, muito frio em sua posição, respondeu:

– Ai é que está… A questão não é o que não fazer, mas sim “fazer”… Fazer envolve coragem, fazer é saber que você pode errar e acertar, é um risco, fazer é correr riscos, mas sem riscos, a vitória não vem.

Depois de 10 anos a frente da empresa, o Garoto, como é conhecido até hoje, inovou em muitas questões, acertou em um bocado e errou em outro bocado, mas conseguiu transformar a marca de refrigerantes de sua empresa, na quarta mais vendida no Brasil e hoje é um dos donos da empresa que começou como gerente.

Certa vez perguntaram para ele:

– Qual sua próxima meta?

– Ser a marca mais vendida no Brasil e depois no mundo!

– Mas a primeira é a Coca Cola, seu refrigerante não chega aos pés dela quanto ao gosto!

– Como disse, primeiro minha meta é ser a mais vendida, depois, a mais gostosa, toda mudança exige certo tempo e trabalho.

Até hoje a Coca Cola, mesmo não sendo incomodada de fato pela empresa, tenta a todo custo comprar a fábrica de refrigerantes populares.

Cristen Charles

Em homenagem a Antonio Carlos Pucciarello, o mais aguerrido e corajoso profissional com quem trabalhei. Não tinha medo de riscos e era ousado até a última medula.

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O Coração Delator

28 06 2011

“Segue o conto -O Coração Delator- de Edgar Alan Poe, para quem assistiu o curta no programa Salada Pop Episódio 13!”

O CORAÇÃO DELATOR

Edgar
Allan Poe

É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que
você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os
destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da
audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno.
Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com
que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas,
uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão
não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou.
Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos
parecia o de um abutre – um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía
sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a
decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem.
Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que
precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca
fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas
as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria,
ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura
suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem
fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça.
Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia
devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma
hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para
que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão
esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a
lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a
dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz
caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as
noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então
era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e
sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava
corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome
em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que
ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que
todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.

Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro
de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca
antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha
sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá
estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos
ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha
ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor
pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com
aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de
ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e
continuei a empurrá-la mais, e mais.

Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar
deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:

— Quem está aí?

Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e
durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama,
ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios
fúnebres na parede.

Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror
mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e
abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia
bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu
próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me
perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me
apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto,
desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde
então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram
infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: “Isto não passa do
vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão”, ou “É só
um grilo cricrilando um pouco”. É, ele estivera tentando confortar-se com
tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a
Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela
envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com
que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha
cabeça dentro do quarto.

Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se
deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna.
Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão
furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da
fenda e caiu sobre o olho do abutre.

Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o
fitava. Eu o vi com perfeita clareza – todo de um azul fosco e coberto por um
véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu
podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por
instinto, exatamente para o ponto maldito.

E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava
de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído
baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu
também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo
aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.

Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava
imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho.
Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada
instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido
extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me
entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas
da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho
quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns
minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais
altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava
conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com
um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele deu
um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre
ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por
muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não
me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho
estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto.
Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia
pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.

Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas
precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei
depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a
cabeça, os braços e as pernas.

Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas.
Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho
humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser
lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora
muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo – ha! ha!

Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro
quanto à meia-noite.

Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir
com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que
se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito
fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido
levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais)
haviam sido encarregados de examinar o local.

Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito,
disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo.
Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar
bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável.
No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os
para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de
um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o
qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu
estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado,
falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e
desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos
ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou
mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me
livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri
que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em
voz mais alta. Mas o som crescia – e o que eu podia fazer? Era um som baixo,
surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto
em algodão
. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei
mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer.
Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase;
mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora?
Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem
as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O
que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na
qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e
continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens
ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem?
Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam!
– Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas
qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais
tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles
sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo
— ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!

— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as
pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!