O ALBERGUE Parte III

21 12 2011

“Sequência do clássico absoluto de horror dos anos 2000, só serve para mostrar o quão genial é Eli Roth e quanto os outros filmes eram melhores do que aparentavam!”

A capa é muito bem sacada!

Há alguns anos, lembro-me que tive uma experiência fantástica com o cinema, mais precisamente com as emoções que o cinema era capaz de nos proporcionar, recordo ainda de ter pensado lá no meu íntimo: “Isso que é cinema MESMO!”. Era mais ou menos assim, o cinema de Piracicaba lotado de jovens, o filme era “O ALBERGUE” e aquele primeiro ato do filme, o qual um grupo de turistas americanos viajava para Bratislava e lá começa uma verdadeira farra com as mulheres, no melhor estilo das comédias adolescentes americanas tipo “American Pie”. Era a estrutura base até então.

Naquele primeiro ato, todos ficavam rindo em voz alta, conversando, jogando pipoca um no outro, um inferno. Irritado, deixo minha namorada na poltrona e vou reclamar com o lanterninha, um senhor de aproximadamente uns cinquenta e cinco anos, que apenas olha para o relógio, aponta para a tela e me diz:

– Aguarde mais uns sete minutinhos e veja a arte se fazer…

Primeiro filme adotou o Torture Porn como subgênero

Após os precisos sete minutos, o filme tem uma quebra de tom e ritmo e entra uma cena de tortura assustadora, onde um jovem amarrado, desesperado, tem os seus “tendões de Aquiles” cortados e o assassino, sadicamente apenas diz: “Corra!”… Você já pode imaginar o resto né?

Naquele momento, eu vi um cinema até então barulhento, ficar silencioso, o público grudar na poltrona e pessoas vomitarem ou saírem da sala com um mal estar terrível. Realmente foi um acontecimento marcante e que ilustra as qualidades do filme como entretenimento de qualidade, porque a arte deve antes de qualquer coisa causar algum tipo de emoção/reação no espectador, nem que seja o asco.

Insano diretor é um gênio quando se fala de sadismo!

Os críticos no Brasil não entenderam a sacada de Roth e se talvez Tarantino tivesse assinado o filme, eles achariam genial, mas era apenas um jovem cineasta que antes tinha dirigido uma pequena obra de arte de horror intitulada “Cabin Fever”, em que homenageava o horror oitentista com muito estilo, oras, essas “monas” não aguentaram o excesso de violência.

Roth como um bom pesquisador do gênero, fez referência aos mestres da violência extrema, como por exemplo, TAKAHASHI MIIKE, numa participação genial e também ao clássico filme asiático “Suicide Club”, numa cena gore espantosa. Todos os predicados para um grande clássico do cinema de horror estavam presentes no filme, que costuma figurar nas listas de especialistas como um dos melhores de todos os tempos quando o assunto é horror, com grande justiça, diga-se de passagem.

Segundo filme é hardcore e leva o estilo para uma nova direção!

Anos depois Roth volta com o “Albergue 2”, que muda o foco, colocando mulheres na jogada (no primeiro ele foi chamado de misógino), ele leva a coisa para uma nova direção, coloca violência ainda mais extrema e algumas cenas de puro mal gosto para alguns, mas a intensidade e verborragia típicas de Roth estavam lá, a cena onde ele homenageia a condessa Bathory, numa banheira de sangue, já é antológica.

Homenagem a condessa Bathory é cena clássica do horror moderno!

O que unia esses filmes é que eles não eram obras bobocas simplesmente, existia um processo dramatúrgico nas interpretações e sim, Eli Roth é um grande diretor de atores, dos bons mesmo. Mesmo que ele faça obras focadas para um público adolescente, desde “Cabin Fever” ele já mostrava uma técnica apurada para a direção de atores.

Por exemplo, as cenas de tortura eram simplesmente desesperadoras, mas qual era o timing técnico? Ao invés de apostar na cena do corte da motosserra propriamente dita, por exemplo, ele focava a interpretação nos segundos que antecediam o corte, no desespero, no revirar do estômago, nas lágrimas, criando momentos realmente perturbadores.

Toda a reflexão acima não é em vão. Quando fora anunciado “O Albergue 3” e fiquei sabendo que Roth não estaria envolvido criativamente e o filme iria direto para o vídeo, me espantei e já esperava o pior – vide a continuação de “Cabin Fever”.

Scott Spiegel, produtor dos outros e ainda por cima, figurinha carimbada no meio do horror, assume a direção da sequência e o roteirista Michael D. Weiss (!?) é quem escreve. Deu para perceber que Eli Roth está totalmente fora da sequência, não?

Na trama, jovens em despedida de solteiro vão para Las Vegas curtir e lá são pegos pelo “CLUBE DA CAÇA DE ELITE”. Uma espécie de “Se Beber Não Case” de horror. O filme até que não começa tão mal, a inversão dos países e a xenofobia dos espectadores é colocada à prova nesse inicio de filme que é o melhor momento do roteiro.

A partir daí falta força, garra e qualidade a todo. Scott Spiegel é incapaz de conseguir criar bons momentos de suspense e horror, muito menos comédia ou humor negro. O elenco é péssimo e as interpretações beiram o amadorismo em alguns momentos, principalmente nos momentos de tortura, que eram para ser o ponto alto do filme.

Vale dizer que a violência demora demais para começar e quando começa, frustra a todos com mortes não criativas, cenas off-screen e efeitos especiais e de maquiagem péssimos. Existe uma cena em CGI que é constrangedora, para se dizer o mínimo. Mais do que isso, a tentativa de juntar o mundo da jogatina de Las Vegas e o Clube da Caça de Elite funcionou mal, ficando a sensação de que cortaram muita coisa do texto original.

Nos outros filmes, a sensação de se estar fora do país, num lugar em que você é um número, estatisticamente falando, é uma forma de brincar com sensações de pânico com o espectador, aqui essa sensação é deixada um pouco de lado, tendo em vista que Las Vegas já fora explorada a exaustão pelo cinema e temos que dizer, Scott Spiegel não tem o necessário para explorar o espaço de Las Vegas como Roth teria, por exemplo.

Mal dirigido, mal escrito e com interpretações sofríveis, “O Albergue 3” é um exemplo do que não fazer em uma sequência de um clássico do horror, na dúvida, não mudem de direção, apostem no que deu certo, é redundante, mas menos frustrante.


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