Dylan Dog e as Criaturas da Noite

7 09 2011

“Dylan Dog é uma obra “infilmável”? Pelo menos no esquema hollywoodiano sim!”

Missão ingrata essa que o diretor Kevin Monroe assumiu: adaptar para as telonas um dos maiores fummeti’s de todos os tempos e que sempre teve como principal característica, textos geniais, que beiravam a mais pura filosofia.  Estou falando de Dylan Dog, criação máxima de Tizano Sclavi, que tem entre seus admiradores nomes do porte de Umberto Eco.

Quando começaram a surgir os rumores sobre o filme “Dylan Dog: Dead of Night”, tratei de manter meu entusiasmo lá embaixo e esperar o pior, tendo em vista que um personagem complexo, estruturado dentro de um universo quase surreal e poético, numa dramaturgia totalmente diferente do que se está acostumado quando o assunto é quadrinhos, seria quase como adaptar o mestre Will Eisner para as telonas; perguntem a Frank Miller como isso é difícil, e já dava para termos noção da desgraça que poderia ser feita. Seria um desrespeito ao original e consequentemente aos fãs, e se uma adaptação de quadrinhos é incapaz de atingir fãs propensos a consumi-la, o que dirá do público médio que está se cagando para quem seja esse tal de Dylan Dog.

E esse é o principal problema de “Dead of Night”, o filme é incapaz de dialogar com os fãs acostumados às histórias do detetive do pesadelo nas hq’s, é incapaz de ser uma mera diversão escapista e a todo o tempo, ele me parece deslocado, mal dirigido e uma bagunça. O filme tenta ser uma mistura de Constantine com filme noir, mas a falta de foco e de uma forte estrutura dramática acaba com as pretensões.

Algumas boas ideias e sacadas aqui e ali funcionam: menções a Grouxo, o inicio que lembra a clássica HQ, o visual de Dylan – mas quando a coisa precisa funcionar, dramaticamente falando, tendo em vista que estamos falando basicamente de uma obra de ficção, o filme de fato, trava. A história é fraca, Dylan para variar está ajudando uma garota que teve o pai morto por um animal, possivelmente um Lobisomen (uma clara menção a Poe), e volta à ativa para investigar o ocorrido, tendo em vista que um amigo seu também foi vitima do mesmo bicho. A partir daí ele entra no mundo dos vampiros e lobisomens, em busca de resposta; logo descobrimos também que Dylan era uma espécie de fiscal desse mundo de monstros… Um horror, um horror…

Com uma premissa já fraca, e um roteiro desconexo, Munroe, que é visualmente bom e estiloso, cria boas sacadas, jogos de lentes ajudam bastante em criar algumas atmosferas, mas a previsibilidade e atuações canhestras, não empolgam em momento algum. O fato é que Munroe é um diretor muito técnico e pouco artístico, e isso realmente atrapalha, quando se têm uma matéria prima muito rica como as fummeti’s da Bonelli Comics.

Outro ponto ruim a se destacar, é o parceiro de Dylan. Todos sabemos que o seu parceiro de HQ, o carismático Grouxo, tinha razão de existir pelo seu estilo surreal de humor e parceria bizarra com o detetive do pesadelo, que na arte sequencial funcionava uma maravilha. No filme, abre-se mão de Grouxo e cria-se um parceiro bizarro (de modo negativo) e sem graça para Dylan, e o que podia ser um alívio cômico, torna-se rapidamente um incômodo digno de “A Praça é Nossa” e “Zorra Total”.

O personagem Marcus, longe de ser um Grouxo e em busca de um resultado semelhante a personagens de outros filmes do estilo – por exemplo, os coadjuvantes de “Espíritos” de Peter Jackson e vários outros – padece de falta de carisma e não funciona em instante nenhum, transformando Sam Huntington, em um paspalho claramente perdido em textos ruins para um personagem péssimo.

O final é aquele desespero, dá a impressão que economizaram efeitos e maquiagens durante o filme todo, para no final, investir todo o orçamento no mais safado CGI e efeitos pirotécnicos, que só deixam o conjunto da obra ainda mais patético. O ponto positivo disso tudo, é que com o fracasso nas bilheterias, uma continuação está praticamente descartada por muitos, muitos anos, possibilitando aos fãs, a esperança que o “fan-film” “Dylan Dog La Muerte Putana”, tenha o mesmo caminho de “Mortal Kombat Legacy”, e seja algo respeitoso e carinhoso com o brilhante, surreal e poético universo que Tizano Sclavi idealizou, e se caso o mesmo não funcionar, lembrem-se: sempre teremos “Della Morte Della More”, filme B europeu, com Ruppert Everet, a verdadeira inspiração visual para Dylan e baseado num livro de Sclavi, ou seja: o mais próximo que o cinema chegou do verdadeiro Dylan Dog das HQ’s.


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